segunda-feira, 3 de julho de 2017

Educação Moral - Episódio 6 - "Quem criou o Mundo?"

Apresentamos o 6º episódio da nova série "Minuto Youcat". Uma produção da Editora Paulus a que o Educris se associa. Um bom recurso para docentes de EMRC, alunos, catequistas e catequizandos bem como aos demais agentes de pastoral.

sábado, 1 de julho de 2017

Educação Moral - Episódio 5 - O que significa dizer que Jesus Cristo é ao mesmo tempo verdadeiro Deus e verdadeiro homem?


Apresentamos o 5º episódio da nova série "Minuto Youcat". Uma produção da Editora Paulus a que o Educris se associa. Um bom recurso para docentes de EMRC, alunos, catequistas e catequizandos bem como aos demais agentes de pastoral.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Educação Moral - Episódio 4: Cremos num Deus ou em três deuses?



Apresentamos o 4º episódio da nova série "Minuto Youcat". Uma produção da Editora Paulus a que o Educris se associa. Um bom recurso para docentes de EMRC, alunos, catequistas e catequizandos bem como aos demais agentes de pastoral.

terça-feira, 20 de junho de 2017

Educação Moral - Episódio 3: O que significa Deus é amor?


Apresentamos o 3º episódio da nova série "Minuto Youcat". Uma produção da Editora Paulus a que o Educris se associa. Um bom recurso para docentes de EMRC, alunos, catequistas e catequizandos bem como aos demais agentes de pastoral.

domingo, 18 de junho de 2017

Educação Moral - Episódio 2: O que tem a minha fé a ver com a Igreja?

Disponibilizamos o 2º episódio da nova série "Minuto Youcat". Uma produção da Editora Paulus a que o Educris se associa. Um bom recurso para docentes de EMRC, alunos, catequistas e catequizandos bem como aos demais agentes de pastoral.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Educação Moral - Episódio 1: O que é a Fé?

Apresentamos o 1º episódio da nova série "Minuto Youcat". Uma produção da Editora Paulus a que o Educris se associa. Um bom recurso para docentes de EMRC, alunos, catequistas e catequizandos bem como aos demais agentes de pastoral.

terça-feira, 16 de maio de 2017

Francisco Xavier da Silva Pereira


n.      14 de março de 1793.
f.       20 de maio de 1852.

Tenente-general do exército, par do reino, vogal do Supremo Conselho de Justiça Militar, inspector-geral da arma de infantaria, governador-geral dos Estados da Índia, deputado da Nação ao congresso constituinte de 1837, etc.

Nasceu em Valença a 14 março de 1793, e faleceu em Lisboa a 20 de maio de 1852. Era filho de Francisco Xavier Silva Pereira, cavaleiro da Ordem militar de S. Bento de Avis, coronel de infantaria do exército e governador da praça de Campo Maior, e de sua mulher D. Antónia José de Abreu.

A vida militar do conde das Antas ocupou um lugar vastíssimo na história politica do século XIX. Na época do seu nascimento, seu pai era oficial subalterno do regimento de Valença, em cuja cidade permaneceu com sua família até 1807, em que veio como licenciado fixar-se no Porto com a patente de capitão. Dedicava-se atentamente a educar seu filho, quando a revolução do 1808 o veio novamente chamar ao serviço militar, sendo encarregado de organizar um batalhão que o moço estudante, abandonando os estudos vem alistar-se, a 20 de junho desse ano. Quando se constituiu a Leal Legião Lusitana, o capitão Silva Pereira foi escolhido para major do 1.º Batalhão, e seu filho recebeu o posto de alferes no mesmo corpo, a 14 de setembro ainda de 1808, com a qual tomou parte na campanha da Restauração. Passou depois a tenente agregado ao 1.º Batalhão da Legião Lusitana por decreto de 3 de novembro de 1809. Seguiu-se a grande luta travada entre o nosso exército, e as hostes de Napoleão, e pode dizer-se que não houve acção importante a que não assistisse. Albuera, Buçaco, Nive, Nivelle, Salamanca, Vitoria, tomando parte em todas elas, sendo ferido na de Salamanca, que se realizou a 22 de julho de 1812. Nestas batalhas houve-se tão distintamente, que foi promovida a capitão de Caçadores 7 pela portaria de 11 de novembro 1813, par distinção no campo de batalha, proposta feita pelo marechal Beresford, juntamente com um ofício dirigido ao comandante da brigada, louvando a sua conduta. E em Orthez e Tolosa deu novas provas de valor, e regressou à pátria na fim da campanha, foi-lhe conferida a medalha da Guerra Peninsular, com o algarismo 6, a 21 de janeiro de 1821, que era a maior distinção militar; fora igualmente condecorado pelo rei de Espanha, com as medalhas de Albuera e de Vitoria.

Em 1820, aderiu à revolução de 24 de agosto, servindo às ordens do coronel e depois general Sepúlveda; em 1823 militou no Exército Constitucional contra as forças rebeldes do general conde de Amarante, sendo afinal desligado do exército com a mudança de política. A 28 de abril de 1826, foi reintegrado e colocado no Batalhão de Caçadores n.º 7 com o posto de capitão graduado em major, donde saiu em dezembro para o 12, já em major efectivo que foi promovido par decreto de 28 do referido mês e ano; comandando este corpo fez a campanha contra as tropas rebeldes do marquês de Chaves em 1827. Proclamada no Porto, em 16 de maio de 1828, a reacção cartista contra a usurpação de D. Miguel, o major Xavier aderiu ao movimento cartista com o seu Batalhão n.º 12 com o qual desbaratou uma coluna de guerrilhas na ponte do Espinhel em 15 de junho do referido ano, merecendo os elogios da general Saraiva, depois barão de Ruivoz; e entrou nas acções da Cruz de Marouços e da margem do Vouga.

Tendo-se dissolvido a célebre junta que se encarregara de manter a autoridade de D. Pedro IV, e marchando o exército para a Galiza, o major Xavier era de opinião que se devia combater, teve, porém de emigrar para Inglaterra com os seus companheiros, partindo a 2 de junho de 1828 a bordo do vapor inglês Belfast. De Inglaterra passou à ilha da Madeira, onde desembarcou em agosto, para sustentar a causa da legitimidade; estava ali o general Valdez, depois conde de Bonfim. Demorou-se pouco tempo naquela ilha, por causa do desembarque das forças realistas, e no dia 23 do referido mês de agosto, juntamente com outros oficiais e alguns habitantes, foi para bordo da corveta inglesa Alegator, donde duas semanas depois passou para o navio Jane, indo desembarcar no porto de Saint-Yves. Fez parte da expedição comandada pelo general conde de Saldanha, que saiu de Plymouth para a ilha Terceira, onde não pôde entrar por causa dos tiros dados pelo capitão Walpole de bordo do Ranger, em 11 de janeiro de 1829, tendo de desembarcar em Brest. Até ao mês de setembro conservou-se em França; sendo então encarregado de reunir as praças de pret emigradas, passou a Ostende, organizou o corpo que depois foi Caçadores 12, e, atravessando o bloqueio, conseguiu desembarcar com o seu batalhão na ilha Terceira, no dia 20 de janeiro de 1830. Nomeado no ano seguinte comandante de Caçadores 5, fez parte da expedição que, ás ordens do general conde de Vila Flor, tomou as ilhas do arquipélago dos Açores, onde se portou com a costumada bravura, especialmente na ilha de S. Miguel, entrando na acção da Ladeira-a-Velha. Em 1832 fez parte do Exército Libertador, desembarcando nas praias do Mindelo em 8 de julho desse ano; era então major de Caçadores 5, e neste posto assistiu e cooperou para o reconhecimento de Valongo em 22 de Julho do mesmo ano de 1832. A 23 de Agosto seguinte foi promovido a tenente-coronel efectivo. Pelos exemplos que deu de bravura e pela táctica com que dirigiu o seu batalhão na memorável defesa das linhas do Porto, desde a investida à fortificação da Serra do Pilar, a 8 de setembro de 1832 data em que principiou a celebridade daquele baluarte de fidelidade e valor, até à interrupção do cerco da cidade, por causa da retirada das forças sitiantes a 6 de agosto de 1833, em que o conde de Bourmont, depois da batalha de 25 de julho do referido ano, teve de acudir a Lisboa a tomar o comando das tropas miguelistas, até que de facto foi levantado pela ultima acção nas linhas do Porto a 18 do referido mês de agosto, contra as forcas realistas comandadas pelo general MacDonald, que substituíra Bourmont e do seu imediato o conde de Almer, que cobrira a retirada; mas sobretudo onde mais se distinguiu o tenente-coronel Xavier foi na sortida de 17 de novembro de 1832, e tomada das alturas das Antas com o bravo batalhão de Caçadores 5, de que então era coronel graduado e comandante, ostentando e ocupando a posição daquele monte, situado a distância da linha de defesa no intermédio, à direita da bateria do monte da Quinta dos Congregados, e esquerda da bateria da cumeada Guelas de Pau, até nele se construir um forte reduto; e, depois na acção de 24 de março de 1833, atacando intrepidamente a posição do monte das Antas, obrigando o inimigo a abandoná-la, e repelindo com a maior valentia e coragem os ataques sucessivos de forças contrárias muito superiores, que dali, por duas vezes, o pretenderam debalde desalojar. Por este facto lhe foi concedido em 3 de outubro o grau de cavaleiro da Ordem da Torre e Espada, de Valor, Lealdade e Mérito, e igual condecorarão foi conferida a diversos oficias e soldados de Caçadores 5, pelo denodo e valentia que mostraram ali estes dois sanguinolentos combates. Por decreto de 22 de novembro de 1832 foi promovido a coronel graduado. Distinguiu-se na sortida de 28 de setembro do mesmo ano, sendo por isso encarregado do comando da segunda brigada da primeira divisão, na ordem do dia de 2 de março de 1833. Em 4 de abril seguinte foi condecorado com o hábito da Conceição, por ter na acção de 24 de março atacado intrepidamente a posição das Antas; entrou no combate de Covelo em 10 de abril de 1833 e foi nomeado comendador da Ordem de Avis, por decreto de 15 de agosto do mesmo ano; em 25 de julho tinha sido promovido a coronel efectivo; tendo marchado com o Batalhão de Caçadores n.º 5 para a defesa da capital, foi elogiado pelo seu comportamento na acção das linhas em 5 de setembro do mesmo ano. D. Pedro IV, por decreto do referido mês, nomeou o conde das Antas comendador da Torre e Espada e de Avis, pelos serviços prestados em 18 de agosto e 9 de setembro. Depois da acção de Cacilhas veio o Batalhão de Caçadores n.º 5 para Lisboa, e ainda no dia 18 de outubro nas linhas, e no imediato em Loures, teve o coronel Xavier ensejo de mostrar o seu valor na frente do inimigo. Cooperou para a tomada de Leiria em 15 de janeiro de 1834, e para a acção de Pernes em 30 do referido mês. A 24 de julho deste ano teve a nomeação de brigadeiro.

Por decreto de 17 de setembro de 1835 foi agraciado como título de barão das Antas. Quando terminou a guerra foi mandado governar a praça de Elvas, onde se conservou apenas um mês, por ter de ir a Évora, reassumindo depois o governo, que tornou a deixar em setembro indo comandar a terceira brigada do corpo do exército, que se formou em Trás-os-Montes para observar a fronteira, às ordens do general Avilez. Em Agosto de 1835 foi nomeado governador de Setúbal, continuando, apesar disso, no Exército de Observações. Tendo-se assinado entre Portugal e Espanha o tratado de 24 de setembro desse ano, marchou em cumprimento dele para Espanha uma Divisão Auxiliar sob o comando do brigadeiro barão do Vale, cuja vanguarda foi confiada ao brigadeiro barão das Antas. A vanguarda entrou em Espanha a 18 de outubro. Em fevereiro de 1836 comandava uma coluna de três mil homens; entrou na tomada de Valmacela cm 12 de março, e nas acções de Castelo da Pedra e Venda Mal Abugro. Nesta ocasião foi agraciado pelo governo espanhol com a cruz de S. Fernando. Quando o governo português chamou a coluna do barão das Antas para mais próximo da fronteira, o comandante em chefe do Exército de Operações do Norte e da reserva rendeu aos nossos soldados, apesar de espanhol, os mais rasgados louvores e a merecida homenagem ao destemido brigadeiro português que os comandava, e que acabava de realçar a sua brilhante carreira militar com as acções de 28 e 29 de junho, pelas quais recebia depois como prémio a grã-cruz de Isabel, a Católica.

Proclamada em Portugal a constituição democrática de 1820, na noite de 9 de setembro de 1836, por alguns batalhões revoltosos da Guarda Nacional de Lisboa, o barão das Antas aderiu à mesma revolução em 23 do referido mês com a divisão de que havia tomado interinamente o comando, por adoecer o barão do Vale. Sendo agraciado com o título de visconde, por decreto de 13 de outubro seguinte, prestou muitos serviços à causa da rainha Isabel nas margens do Ebro e em Vitoria, na campanha de 1837, inutilizando muitas fortificações dos carlistas com repetidos ataques às linhas de Arlaban, em 14 de maio; pretendendo destruir a fábrica de balas por eles estabelecida em Barambio, a seis léguas de Vitoria, feito este que mereceu os maiores elogios do ministro da Guerra espanhol e do conde de Luchano; salvando por três vezes a praça de Pena Serrada, batendo a 18 de junho as forças do pretendente em Salvatierra. No dia 21 de julho o visconde das Antas, com a divisão portuguesa, bateu-se nos campos de Zambrana, retirando-se para Armiñon com enorme perda. Durante a sua permanência em Espanha exerceu o comando geral das Merindades de Castela, o comando em chefe de reserva e o das forças de Alcoa, o vice-reinado de Navarra e o comando geral das províncias Vascongadas.

Em Portugal rebentou então a revolução cartista, e o governo chamou o visconde das Antas, que logo em 3 de setembro entrou em Almeida com o resto das tropas, quando a segunda brigada da Divisão Auxiliar, comandada pelo coronel José de Sousa Pinto, acabava de proclamar a Carta durante a sua marcha de Valadolid por Salamanca, e quando ia juntar-se aos revoltosos de Bragança. O visconde das Antas, que em 5 de setembro havia sido promovido a marechal de campo graduado, dirigiu-se por Lamego, onde entrou rio dia 9, chegando ao Porto em 13, saindo logo em 15 em perseguição das forças cartistas do barão de Leiria, que encontrou em Ruivães, e que depois de renhido embate pôs em debandada. Seguiu-se a convenção de Chaves, assinada em 20 de setembro, pelos marechais duque da Terceira e marquês de Saldanha, que obrigados a assiná-la juntamente com o visconde das Antas, e cuja convenção pôs termo ao movimento revolucionário. Por decreto do 27 do referido mês, foi o visconde das Antas promovido a marechal de campo efectivo, e encarregado do comando das tropas de observação nas províncias do norte, tomando assento no congresso constituinte como deputado na sessão de 10 de novembro. Por decreto de 4 de abril de 1838 foi elevado a conde do mesmo título, e por decreto de 15 de maio seguinte teve a nomeação de comandante da 3.ª Divisão Militar, continuando no comando das forças de observação. Prestou juramento à constituição de 1838 na praça de Chaves, à frente da divisão em grande parada no dia 6 de maio. Proclamada a Carta Constitucional no Porto a 27 de janeiro de 1842, o conde das Antas, na sua qualidade de senador, assinou com outros senadores o protesto contra este movimento, e foi nomeado comandante duma divisão de operações da Estremadura, por decreto de 7 de fevereiro daquele ano, com o fim de hostilizar este movimento, o que não se realizou. porque a rainha D. Maria II aderiu ao mesmo movimento, nomeando em seguida novo Ministério. Então foi o conde das Antas encarregado de dissolver a força e as guardas nacionais, que armara o ministério denominado do Entrudo, comissão que desempenhou através alguns insultos da plebe angariada. Por carta régia de 3 de maio seguinte foi nomeado par do Reino tomando assento na respectiva Câmara, votando sempre na oposição do Ministério cartista. Por carta régia de 18 de julho do referido ano de 1842 teve a nomeação de governador dos Estados da Índia, sendo promovido a tenente-general por decreto datado do dia seguinte, 19 de julho. Pouco tempo se demorou no governo da Índia de que tomou posse a 19 de setembro, deixando-o a pretexto de falta de saúde a 25 de abril de 1843 entregando-o ao chefe da divisão, Joaquim Mourão Garcez Palha, partiu para Portugal e chegou a Lisboa a 23 de julho. Tomou assento na Câmara dos Pares e foi eleito para a Comissão de Guerra por dezanove votos, na sessão de 3 de janeiro de 1844. Por decreto de 11 de julho deste ano, teve a nomeação de vogal do Supremo Conselho de Justiça Militar.

Em maio de 1846 foi nomeado pelo ministério do duque de Palmela, que se acabava de formar, comandante da 1.ª Divisão Militar; transferido em agosto para o Porto, e encarregado do comando das forças do norte. Quando em 6 de outubro de 1846 rebentou a revolução contra o governo do conde de Tomar, o conde das Antas assumiu o comando geral do exército levantado pela junta do Porto, e, pondo-se à frente da revolução, explicou os motivos deste proceder numa carta que dirigiu à rainha. Marchou então para o sul com uma divisão dos corpos que seguiram a causa da junta, e, entrando em Santarém, foi logo obrigado a retirar-se ao Porto, por ter ficado prisioneira em Torres Vedras uma grande parte das suas forças, que obedeciam ao conde de Bonfim. Aproveitando o entusiasmo da cidade e imediações pela causa da junta, de pronto organizou novos regimentos, e em fevereiro de 1847 marchou para o norte contra o conde do Casal, que nessa época estava senhor de Viana. Depois dalguns movimentos no Minho. regressou ao Porto, e em Maio tomou o comando da expedição que seguiu por mar para Lisboa. Logo à saída da barra do Porto, o conde das Antas foi intimado pelo comandante da esquadra inglesa sir T. Maitland, para suster o movimento e ancorar debaixo do fogo dos seus navios. O conde protestou, mas vendo-se cercado por forças superiores entregou-se prisioneiro, e seguiu para a capital. Entrando a barra do Tejo foi logo remetido para a Torre de São Julião, onde esteve até à convenção de Gramido, em que recuperou a liberdade, sendo-lhe então restituídos os postos e honras de que o governo de Lisboa o tinha exautorado. Já velho, mais pelos trabalhos que pela idade, desgostoso e cansado, o conde das Antas afastou-se quase completamente da política. Pelos fins do ano de 1851 foi nomeado inspector de Infantaria, e em maio seguinte faleceu na sua casa da rua de Santa Isabel, hoje rua Saraiva de Carvalho. O seu nome era conhecido e respeitado dum extremo ao outro do país. Em todas as lutas civis que se travaram pronunciava-se sempre pelo partido do povo chamado patuleia.

O conde das Antas casou a 22 de julho de 1845 com D. Maria Teotónia da Guerra e Sousa de Rávago Santistevan, filha única e herdeira de Gaudino José da Guerra e Sousa, e de sua mãe, D. Maria Bernarda Josefa Fagundo de Rávago Santistevan (V. 3.º conde dos Antas). Deste matrimónio houve dois filhos, Francisco e Fernando, já hoje falecidos, e que foram os 2.º e 3.º condes deste título. A morte do conde das Antas foi muito sentida pelo povo; no dia do funeral, depois dos ofícios religiosos que se celebraram com grande pompa na igreja de Santa Isabel, o caixão foi levado a braços até ao cemitério dos Prazeres, seguindo-se o coche e um concurso enorme de convidados. As tropas de toda a guarnição estavam formadas no largo do cemitério, onde prestaram as últimas homenagens ao valente militar. Por uma subscrição popular que se abriu, construiu-se um soberbo mausoléu, para onde em 1859 foram trasladados os seus restos mortais, com todas as honras devidas. Sobre o tumulo vê-se a sua estátua, que é um primoroso trabalho do falecido escultor Victor Bastos.

A viúva do insigne tenente-general passou a segundas núpcias, a 22 de setembro de 1855, com Luís de Quilinan, 2.º secretário da legação portuguesa em Londres, cavaleiro da Ordem militar de S. Bento de Avis, comendador da Ordem de S. Gregório Magno, de Roma, cavaleiro da Ordem de Danebrog, de Dinamarca, comendador das ordens de S. Maurício e S. Lázaro, de Itália, bacharel formado na Universidade de Coimbra, em direito e matemática, capitão de cavalaria. Com o segundo casamento, a viúva perdeu o direito de usar o título e de gozar as honras de condessa que lhe pertenciam pelo seu primeiro marido, em consequência de não se lhe haver concedido alvará para poder continuar a gozar das honras e título de condessa das Antas, sem embargo de haver passado a segundas núpcias, como é de estilo e antiga praxe da corte. Faleceu em Londres a 10 de maio de 1872.
O conde das Antas publicou o Discurso pronunciado na sessão da Câmara dos Dignos Pares em 15 de Fevereiro de 1848.

Notícia retirada daqui

domingo, 14 de maio de 2017

Luís António Furtado de Castro do Rio de Mendonça e Faro

n.      7 de setembro de 1754.
f.       7 de abril de 1830.



Era o 10º senhor de Barbacena. 

Nasceu em Lisboa a 7 de setembro de 1754, onde também faleceu a 7 de abril de 1830.

Mostrando logo nos primeiros anos inteligência e aplicação pouco vulgares, foi, segundo as insinuações do marquês de Pombal, mandado por seu pai estudar na Universidade de Coimbra, logo depois da reforma deste estabelecimento de instrução superior, decretada em 1772. Matriculando-se nas faculdades de filosofia e de leis, foi o primeiro que recebeu o grau de doutor em filosofia. Enquanto completava o curso de direito, regeu, durante o impedimento do professor Vandelli, a cadeira de história natural, em que se houve com toda a competência.

Concluídos os estudos, regressou a Lisboa, e cultivando com dedicação a historia natural, foi um doa instituidores da Academia Real das Ciências, na qual serviu de secretário desde a sua criação, até que partiu para o Brasil, por ter sido nomeado governador e capitão general das Minas Gerais. No tempo deste seu governo, apareceu a primeira tentativa de revolta, sendo esta a primeira manifestação da ideia da independência do Brasil. Esse movimento foi iniciado por Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, com o auxílio de diversos indivíduos, em que se contavam os poetas Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa. A revolta foi denunciada por Joaquim Silvério dos Reis, e o visconde de Barbacena imediatamente mandou suspender as medidas tributárias que os revolucionários apontavam como iníquas e opressivas, e prender todos ou implicados nessa revolta, fazendo assim abortar a ideia de independência, que mais tarde se devia realizar.

Depois de dez anos de governo, voltou ao reino, a teve a nomeação de veador da princesa D. Carlota Joaquina, mais tarde rainha. Escolhido para escrivão da mesa da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, prestou muitos serviços no exercício daquele lugar. Mais tarde foi nomeado presidente da Mesa da Consciência e Ordens. Quando a família real se retirou para o Rio da Janeiro em 1807, o visconde de Barbacena não a acompanhou, e permanecendo em Lisboa, Junot o escolheu para fazer parte da deputação que foi cumprimentar o imperador Napoleão; partiu para Baiona, seguindo depois para França. Sendo estabelecida a paz, voltou a Portugal, onde se dedicou quase exclusivamente ao estudo.

Em 1816 foi-lho concedido o título de conde de Barbacena, e em 1823 nomeado conselheiro de Estado. Era casado com D. Ana Rosa José de Melo, primeira filha dos 1.os marqueses de Sabugosa, António Maria de Melo da Silva César e Meneses, e D. Joaquina José Benta Maria de Meneses. Faleceu depois duma longa enfermidade.

Notícia retirada daqui


sexta-feira, 12 de maio de 2017

João de Canto e Castro

   
O contra-almirante João de Canto e Castro Silva Antunes foi eleito a 16 de Dezembro de 1918, em substituição de Sidónio Pais e logo após o assassinato deste, num momento em que Bernardino Machado, no exílio, era ainda, à luz da Cons-tituição, o legítimo Presidente. 
             Os monárquicos, que tinham ganho terreno durante o sidonismo, exigiram que os ministros republicanos fossem demiti-dos e, em Santarém, a 12 de Janeiro de 1919 e com o apoio do Partido Socialista, os republicanos revoltam-se. Houve até a situação insólita de se proclamar a monarquia no Porto e em Lisboa, mas o Governo acaba por dominar os insurrectos. Henrique Paiva Couceiro (1861-1944), que fora governador de Angola no tempo de João Franco, foi, durante um escasso mês, o garante dessa "Monarquia do Norte" - desi-gnada depreciativamente por "Traulitânia". 
             João de Canto e Castro Silva Antunes era monárquico, mas no espaço de tempo em que exerceu as funções de Presidente da República - 16 de Dezembro de 1918 a 5 de Outubro de 1919 - não o fez nem como militar nem como monárquico. É curioso como este homem que, à partida tinha dois "defeitos" impossíveis de conciliar (monárquico e militar) com o exercício da Presidência da República, o fez de um modo que os historiadores mais tarde consideram como justo e isento. 
             João de Canto e Castro nasceu em 19 de Maio de 1862. Foi deputado em 1908 e ministro da Marinha em 1918. O seu mandato não foi isento de dificuldades com as tentativas dos monárquicos de voltar ao poder. Para chefiar o novo Governo, Canto e Castro escolheu o general Tamagnini Barbosa, que ocupará esse cargo até Janeiro de 1919. 
             Durante a "Monarquia do Norte" os rebeldes monárquicos refugiaram-se em Monsanto, mas uma manifestação popular encabeçada por republicanos vai desalojá-los. A vitória ficou do lado dos republicanos. Os Governos mudavam em escassos meses e o Presidente Canto e Castro chamou então para chefe do Governo um dos republicanos mais prestigiados de sempre: José Relvas. 
             (Fora ele que, em 5 de Outubro de 1910, às 9 horas da manhã, proclamou a República da janela dos Paços do Concelho.) Este Governo terá a particularidade de integrar Augusto Dias da Silva, o primeiro socialista num governo da I República. 
             Nas eleições para deputados, em Maio de 1919,0 Partido Democrático obtém uma inequívoca vitória, com 86 deputados em 163. Dois meses depois, a 19 de Julho de 1919, o presidente eleito do Brasil, Epitácio Pessoa, visitou Portugal. Na vigência de Canto e Castro, quem vai saudar o presidente do País-irmão é António José de Almeida, que ao termina o discurso recebeu uma estrondosa salva de palmas. António José de Almeida estivera escondido durante a "Monarquia do Norte" e reaparecendo apenas por ocasião da visita do presidente do Brasil. 
             O Presidente João de Canto e Castro acaba o seu mandato quando, a 5 de Outubro de 1919, António José de Almeida, homem da República desde a primeira hora, é eleito Presidente. O outro candidato ao cargo era Manuel Teixeira Gomes, que será Presidente mais tarde. Com a revisão da Constituição o Presidente passou a poder dissolver as Câmaras.

Notícia retirada daqui

quarta-feira, 10 de maio de 2017

Bernardino Machado


Bernardino Luís Machado Guimarães era em tudo (menos no ideário republicano) o oposto de Teófilo Braga: bonito, aprumado, rico, pai de família, vaidoso, cavalheiro, ambicioso. Tratava os seus piores inimigos por "meu queridíssimo amigo". 
             Nasceu no Rio de Janeiro em 28 de Março de 1851, filho de pai português António Luís Machado Guimarães e de mãe brasi-leira, Praxedes de Sousa Ribeiro Guimarães. A família regressou a Portugal em 1860 e vai viver para uma povoação do concelho de Vila Nova de Famalicão chamada Joanes. O pai receberá o título de 1º Barão de Joanes. Bernardino Machado tinha uma figura aprumada, sempre com o farto bigode e barba bem aparada, que no fim da vida, já muito velhinho, deixava crescer como uma "trepadeira selvagem." 
             Ao atingir a maioridade, em 1872, Bernardino Machado optou pela nacionali-dade portuguesa. Casou, em 1882, com Elzira Dantas, filha do Conselheiro Miguel Dantas Gonçalves Pereira, e teve dela 18 filhos. A mulher de Bernardino Machado viria a ser uma grande colaboradora em tudo e também na sua vida de estadista. Passou com ele as agruras de dois exílios e, durante a 1ª Grande Guerra, foi presidente da Cruzada da Mulheres Portuguesas, que apoiou activamente o Corpo Expedicionário Português em França. Duas filhas suas também participaram. Ela viria a escrever para os netos, em 1934, um livro de Contos. 
             Bernardino Machado foi sempre um lutador, sem deixar de ser galante, Caricatura de Bernardino Machadotirava o chapéu a toda a gente que o cumprimentava. Há inúme-ras caricaturas sobre este curioso hábito do 3º Presidente da 1ª Repúbli-ca, portuguesa como da sua numerosa prole, que inspirou inúmeros desenhos a Rafael Bordalo Pinheiro e a Francisco Valença, entre outros. 
             Em 1866 Bernardino Machado matriculou-se na faculdade de Matemá-tica, em Coimbra, e no ano seguinte em Filosofia, tendo-se doutorado com apenas vinte e oito anos nessas duas especialidades. Foi, pois, um aluno brilhante e depois professor. 
             Deputado do Partido Regene-rador entre 1882 e 1886 e Par do Reino em 1890, Ministro das Obras Públicas, Comércio e Indústria, desde Fevereiro a Dezembro de 1893, teve uma acção muito positiva na reformulação do ensino profissional e inovou os sectores da agricultura, comércio e indústria (escreveu mesmo "A Agricultura", em 1899). Desiludido com a Monarquia aderiu ao Partido Republicano Português, em 1903. É a partir desta fase que no seu Partido luta para que este "seja um partido republicano profundamente socialista". No ano seguinte chega ao Directório. 
             Implantada a República, na qual não participa directamente, será no Governo Provisório Ministro dos Negócios Estrangeiros, por sugestão de Afonso Costa, onde teve uma acção importante no reconhecimento da nova república por parte dos países estrangeiros. Renovou a aliança com a Inglaterra e organizou o primeiro Congresso de Turismo. Amigo do Presidente do Brasil levou a cabo acordos e elevou as Legações no Rio de Janeiro e Lisboa à categoria de Embaixadas, tendo sido o primeiro embaixador de Portugal no Brasil, em 1de Novembro de 1913. 
             Bernardino Machado, que aderira à Maçonaria, era já Grão-mestre em Julho de 1895. Primeiro Ministro em 1913, num período de lutas partidárias, vem a ser eleito Presidente da República em 6 de Agosto de 1915. 
             Durante a 1ª Grande Guerra defende a participação de Portugal no conflito. A Alemanha declarou guerra a Portugal em 9 de Março de 1916. Bernardino Machado tentou um acordo de tréguas (uma "União Sagrada") entre os três partidos perante o tão grave período da Guerra, mas sem total sucesso. Foi o general Norton de Matos quem organizou o Corpo Expedicionário cujos contingentes embarcaram para França em Janeiro de 1917. 
             O período em que Bernardino Machado foi Presidente da República foi de grande agitação social. Desde o início da Guerra, em 1914, que começaram a escassear produtos de primeira necessidade. Quase não havia farinha, nem carvão. Lisboa ficou sem eléctricos, sem luz e sem polícia nas ruas depois da 11 horas da noite. 
             O chefe do Governo era Afonso Costa. E é contra este político que se vão avolumando críticas e ódios. Na sua ausência (de Bernardino Machado), em Londres, um movimento revolucionário liderado por Sidónio Pais, acampou literalmente na Rotunda (hoje Rotunda do Marquês de Pombal) em 5 de Dezembro de 1917 para derrubar o Governo. A população esfomeada aproveitou para assaltar as lojas. Sidónio toma então conta do poder. Demite o Presidente e, quando Afonso Costa regressa do estrangeiro, é preso no Porto. Em Lisboa, a casa de Afonso Costa é saqueada e os móveis lançados à rua. Afonso Costa parte, com familiares, para um exílio de onde nunca mais voltou. 
             Sidónio Pais faz-se eleger Presidente da República, por sufrágio universal, em Abril de 1918 e à revelia da Constituição de 1911. Bernardino Machado recusou resignar à Presidência, mas foi detido no Palácio de Belém durante uns dias. Depois é-lhe imposto o exílio. Parte para França no Natal de 1917, acompanhado de parte da família, onde irá perder uma filha e onde não desiste de lutar pelo retorno à legitimidade da vida política Portuguesa. Regressará em 1919.
As eleições de Novembro de 1925 dão a vitória aos democratas. O Congresso elege , agora sim, Bernardino Machado. 
             Sobre a sua vida já muito se disse na primeira parte deste artigo. Joel Serrão retratou-o assim no "Dicionário da História de Portugal" (p. 867): "Político dos mais notáveis da 1ª República Portugue-sa, Bernardino Machado foi um cidadão exemplar no rigoroso cumprimento dos seus deveres e na defesa intransigente dos seus direitos". 
             Depois de um primeiro mandato na presidência, de 6 de Agosto de 1915 a 5 de Dezembro de 1917, Bernardino Machado experimentou um longo e forçado exílio, durante o qual recusou transmitir os poderes presidenciais aos vencedores da revolução sidonista de 5 de Dezembro de 1917. 
             Este seu segundo mandato foi curto. Apenas de 11 de Dezembro de 1925 ao eclodir do movimento do 28 de Maio de 1926. A situação financeira do País era bastante melhor do que durante o seu primeiro mandato, mas o clima político não era nada calmo. Houve neste período um problema com os tabacos, passando para o controlo do Estado. A 28 de Maio, em Braga, o general Gomes da Costa revolta-se "contra as quadrilhas partidárias" e em Lisboa foi organizada uma junta revolucionária chefiada por Mendes Cabeçadas, a quem Bernardino Machado acaba por entregar o poder, como explica em 1926: 
             "Quando transmiti os poderes presidenciais, fi-lo a um chefe de governo, de coração republicano, que eu sabia bem que se propunha restaurar o mais breve possível a ordem constitucional. Aos seus sucessores eu não os transmitiria". Bernardino Machado teve plena consciência de que a República estava em perigo. Mas era tarde de mais. 
             Jaime Cortesão elogia-o deste modo: "Ele não foi um manipanço vago e solene, de capacete amarrado na cabeça. A sua legendária chapelada, que se diria ir do palácio de Belém até ao fundo dos campos de Portugal, ficou como exemplo democrático do respeito do homem pelo homem".

Biografia retirada daqui

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Adelino Amaro da Costa


Presidente do grupo parlamentar do CDS na Assembleia Constituinte, foi Ministro da Defesa do governo da AD.

Nasceu em Lisboa, a 18 de Abril de 1943;
morreu em Lisboa, a 4 de Dezembro de 1980.

Engenheiro civil pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, em 1966, colaborou com Veiga Simão no ministério da Educação, enquanto director do Gabinete de Estudos e Planeamento.

Fez o serviço militar na Marinha de guerra.

Em 1975, após o 25 de Abril, fundou com Diogo Freitas do Amaral o Centro Democrático-Social (CDS), com as dificuldades impostas pela radicalização da política portuguesa, que dificultaram a implantação do partido a nível nacional, devido aos boicotes sucessivos à sua actividade partidária, sendo considerado nessa época quase como um partido neo-fascista.

As eleições para a Assembleia Constituinte legitimaram  de uma vez por todas o partido, que conseguiu eleger 16 deputados para a câmara legislativa, formando um grupo parlamentar. Se não teve grandes intervenções de fundo, distinguiu-se nessa época como um tribuno sagaz, irónico e competente, tornando-se o principal ideólogo do partido.

Em 1978 ajudou a celebrar o acordo político que viabilizou o 2.º governo constitucional, dirigido por Mário Soares, e que teve a participação de membros do partido, como Sá Machado e Rui Pena. No ano seguinte, com o falhanço do acordo político com o PS, negociou pelo CDS a criação da Aliança Democrática (AD), que juntou o PPD, o PPM e o CDS, numa coligação eleitoral, que se apresentou às eleições em todos os círculos eleitorais, à excepção da Madeira.

Após os quatro governos de iniciativa do presidente da república Ramalho Eanes, que se sucederam de Agosto de 1978 a Janeiro de 1980, completando parcialmente a 2.ª legislatura da Assembleia da República, após a exoneração de Mário Soares de primeiro ministro, as eleições intercalares de 2 de Dezembro de 1980 deram a maioria absoluta à AD.

Amaro da Costa foi nomeado ministro da defesa nacional, tendo sido empossado com todo o restante governo em 3 de Janeiro de 1980, o primeiro ministro civil da defesa desde o 25 de Abril de 1974.

A passagem pelo governo foi muito curta, devido à sua morte no desastre de aviação ocorrido em Camarate na noite de 4 de Dezembro de 1980, quando se dirigia de avião com o primeiro ministro Sá Carneiro e respectivas mulheres para o Porto, para um comício eleitoral no âmbito da campanha para a Presidência da República, que decorria nessa altura.

A queda do avião Cessna foi considerado pelas instituições do estado e pelo sistema jurídico português  como um desastre, mas algumas das várias comissões parlamentares de inquérito  consideraram o acontecimento como um atentado.


Fonte: 
Enciclopédia Portuguesa e Brasileira de Cultura, Adenda.

sábado, 6 de maio de 2017

Afonso Costa


Presidente do Conselho de Ministro, ministro, dirigente do Partido Republicano e do Partido Democrático.

Nasceu em Santa Marinha a 6 de Março de 1871;
morreu em Paris, a 11 de Maio de 1937.

Afonso Costa nasceu no Concelho de Seia, na Beira Alta, sendo o filho mais novo de três irmãos. Em 1888, entrou na faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, sendo um dos melhores alunos do curso. 

Em 1896 era professor da Universidade, sendo o seu mais jovem professor e em 1900 tornou-se professor catedrático. Pouco depois começou a exercer a advocacia com grande sucesso, sendo a sua capacidade argumentativa reconhecida. 

Entrou na política cedo - defendendo ideias republicanas. A partir de 1897, ano da realização do seu primeiro discurso público, a defesa apaixonada e convincente da mudança de regime político tornou-o uma mais-valia para o pequeno partido Republicano e uma das suas figuras mais influentes. 

Foi eleito para a Câmara dos Deputados pelo círculo do Porto, primeiro em 1897, sendo as eleições anuladas, e, em 1900, defendendo claramente a substituição das instituições monárquicas por outras de feição republicana. Pouco depois, o Governo do Partido Progressista caiu realizando-se novas eleições. Afonso Costa não conseguiu ser reeleito. Em 1906, novamente deputado, proferiu um violento discurso na Câmara dos Deputados no debate sobre os adiantamentos à Casa Real em que afirmou, no meio da balbúrdia que "por muitos menos crimes do que os cometidos por D. Carlos I, rolou no cadafalso, em França, a cabeça de Luís XVI!" Possivelmente o mais importante discurso de Afonso Costa, e claramente o mais importante para compreender o fim da monarquia em Portugal. Uma declaração de guerra, clara e inequívoca, do Partido Republicano ao regime monárquico, mas sobretudo uma condenação pública à morte do chefe de Estado português, o rei D. Carlos, que foi aplicada 14 meses depois. De facto, no início de 1908, o País estava em crise. Em Lisboa, um grupo de amotinados tentou destituir a Monarquia e proclamar a República. Foram colocadas bombas em várias esquadras de polícia, o que levou à prisão de vários dirigentes republicanos, prevendo-se a sua deportação, entre eles Afonso Costa. O rei D. Carlos e o herdeiro do trono, D. Luís Filipe, foram assassinados no dia 1 de Fevereiro de 1908. 

Em Outubro de 1910, um levantamento popular conseguiu implantar a República, não tendo havido uma resposta determinada do Exército. Formou-se um Governo provisório chefiado por Teófilo Braga, tentando impor um regimento com apoios unicamente na população urbana num país rural. Afonso Costa ficou com a pasta da Justiça: fez uma revolução num ministério que primava pela discrição. Iniciou reformas claramente anti-clericais, que contribuíram para o aumento da impopularidade do novo regime junto da população e da ala conservadora do republicanismo. Mas o ministro da Justiça e dos Cultos não cedeu às pressões e continuou com a política de afirmação dos valores laicos da República e de separação do Estado das igrejas, instituindo também o registo civil obrigatório. 

Afonso Costa fez parte de outros Governos, tendo dirigido três até 1923. Foi visto como um dos principais responsáveis pela instabilidade que se viveu durante a I República. Afastado, em 1917, pelo golpe de Sidónio Pais, esteve preso durante algum tempo, mas no ano seguinte, com o assassinato do presidente e o fim do Sidonismo chefiou a delegação portuguesa que assinou o tratado de Versalhes, que terminou a Primeira Guerra Mundial. Foi também representante português na Sociedade das Nações. Nos últimos anos da I República, foi algumas vezes convidado a formar Governo, mas recusou sempre. Com o 28 de Maio de 1926, o golpe militar que deu origem a uma prolongada ditadura militar, e deu origem ao Estado Novo, Afonso Costa exilou-se passando a viver em Paris. Tentou ali organizar a oposição, mas sem sucesso. Faleceu na capital francesa em 1937.


Fonte: 
Enciclopédia Portuguesa e Brasileira de Cultura.
A. H. de Oliveira Marques, Afonso Costa, Lisboa, Arcádia, 1972.

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Tomar (António Bernardo da Costa Cabral, 1.° conde e 1.° marquês de).


n.  9 de Maio de 1803 
f.   1 de Setembro de 1889

A figura preponderante deste ilustre estadista na política portuguesa é sobejamente conhecida pela sua obra em torno da qual girou toda a política de consolidação constitucional do reinado de D. Maria II. Objecto das mais apaixonadas discussões, odiado por uns, adorado e extremecido por outros, esse homem não pôde esquivar-se ao destino que sempre envolve os vultos da sua estatura intelectual, para os quais a critica, só muito tarde, encontra a serenidade precisa para os julgar. A índole deste trabalho, obriga-nos a abandonar ás obras especiais o estudo minucioso do seu papel político, limitando-nos aqui a leves referencias aos factos e a procurar reunir alguns traços biográficos inéditos por vezes, do homem e do estadista. 

Filho segundo do conselheiro António Bernardo da Silva Cabral e de D. Francisca Vitória Rebelo da Costa Corte Real, o futuro 1.º conde e 1.º marquês de Tomar, António Bernardo da Costa Cabral, nasceu em Algodres, aldeia encravada nas serranias da Beira, distrito da Guarda, em 9 de Maio de 1803. Era pequena a fortuna dos pais, que sobrecarregados com a educação de mais filhos (o futuro conde de Cabral e o futuro presidente do supremo tribunal de justiça) que em Coimbra estavam a estudar, tornaram desde logo o projecto de entregar o filho António a essa vida acidentada e aventurosa que era a carreira militar daquele tempo. No entretanto mandaram-lhe ensinar as primeiras letras pelo abade da terra, como era então costume, e tanto o mestre como o discípulo tão bem se houveram, que aos 15 anos de idade Costa Cabral estava habilitado com os preparatórios da Universidade, para onde o pai se resolveu enfim a mandá-lo também; aos 20 anos concluiu com distinção a formatura em direito. Foi este o seu primeiro triunfo, a pedra de toque da sua inteligência e da sua vontade. Sai de Coimbra, monta banca de advogado em Penela, em Celorico da Beira depois (1826) e seguiria no foro, em que decerto viria a notabilizar-se, se a funesta guerra civil de então, entre absolutistas e liberais, o não arrastasse, num gesto juvenil e desinteressado, a alistar-se como soldado, nas hostes liberais de Azevedo, futuro conde de Samodães. Vencido o exército constitucional, ferozmente perseguido, consegue Costa Cabral refugiar-se na Galiza, passando depois a Inglaterra, à Bélgica e daí à ilha Terceira. Nomeado então para a Junta de Justiça, para o Supremo Tribunal de Guerra depois, é-lhe finalmente cor, fiado o dificílimo cargo de secretario da Auditoria Geral do exercito de D. Pedro de Bragança, e nessa qualidade desembarca no Mindelo e arrisca a vida no cerco do Porto. O seu espírito jurídico, fundamentalmente organizador, não podia passar desapercebido num momento em que de organização tanto se carecia; por isso depois de exercer o lugar de Procurador Régio na Relação do Porto, embarca novamente para os Açores (1833), mas agora como juiz da Relação daquela província. Ali viveu numa relativa tranquilidade, casando com D. Luísa Meredith Read, filha desse cônsul geral de Inglaterra, a quem, como é sabido, o exército liberal tanto deveu, a começar pelo seu chefe D. Pedro, que o hospedou em sua casa. Eleito deputado pela segunda vez em 1836 é então que propriamente inicia a sua vida política e parlamentar. A anarquia no país era completa; a destruição em Portugal de um regime profundamente enraizado por tantos séculos; a implantação de ideias novas ainda mal compreendidas pela massa popular, realizadas por homens inexperientes e idealistas, cujo objectivo predominante era agradar ás multidões os pronunciamentos constantes da Guarda‑Nacional, amálgama instável de elementos os mais heterogéneos e irrequietos; o excessivo prestígio, nem sempre justificado, de muitos homens do constitucionalismo, tudo isto levara o país ao extremo da desordem social. Em Lisboa principalmente, a sede das legações e consulados estrangeiros, podia esta desordem conduzir aos mais funestos resultados. Mas para evitá-los, só um homem de qualidades excepcionais, dotado de energia rara e de esclarecido conhecimento da multidão a dominar, poderia dar à cidade o sossego e a tranquilidade de que ela, sob pena de maior desprestigio, tanto carecia. Costa Cabral foi o homem escolhido pelo governo e pela rainha para realizar esse desideratum de todos os portugueses conhecedores do melindre da situação. É bem conhecido como ele soube desempenhar-se de tão difícil missão. A Guarda Nacional foi dissolvida. Muitas vezes arriscou ele a vida, muitas vidas salvou também; mas para isso e por isso mesmo, Costa Cabral criou os primeiros ódios; o sacrifício estava iniciado e a luta esboçava-se, mas a luta, como se viu, não atemorizou jamais o fundador do partido cartista. Em 1839 é-lhe confiada pela primeira vez a pasta da justiça, onde a acção da sua personalidade se faz logo sentir, apesar do estorvo constante duma luta formidável com as oposições que, percebendo ser ele a verdadeira alma do ministério, pouco tempo lho deixaram de sossego. Basta ler os diários das Câmaras da época, para logo se avaliar o que foi essa oposição sem tréguas. Mas Costa Cabral que lhe importava! Atacado como ainda não fora nenhum homem publico, nem por isso deixa de regularizar as funções do ministério publico, de melhorar a triste condição dos presos, de prover ao bem estar dos órfãos garantindo-lhes a administração dos bens, de promulgar a sua Novíssima Reforma Judiciaria, código modelar, por onde, ainda hoje, a nossa justiça se regula. Mas o acto da sua vida que mais o caracteriza, por ele mesmo considerado o mais importante, sob e ponto de vista político, foi a Restauração da Carta Constitucional substituída desde Setembro de 1836 pela celebre constituição, generosa sem duvida, mas que tantas dificuldades havia trazido à vida nacional a Constituição setembrista. Já em Junho de 1837, Saldanha e Terceira, reconhecendo-lhe os inconvenientes, haviam tentado restaurar a constituição de 1826, com a celebre revolta dos Marechais, mas essa tentativa falhou, resultando apenas daí a perturbação do país e o exílio dos prestimosos soldados. Outro tanto não sucedeu, porém, ao reformador de 1842, que parte para o Porto a 14 de Janeiro, prepara para 27 a revolução cartista, organiza a junta do governo e marcha sobre Lisboa. A 10 de Fevereiro é publicado o decreto restaurando a Carta e a 24, principia a larga administração de Costa Cabral, sendo nomeado ministro do reino. Lê se na História de Portugal, de Barbosa Colen, a pág. 616: «Logo no primeiro ano dessa histórica administração, Costa Cabral não desmentiu o juízo que dele se formara. Os trabalhos do ministro do reino repartiam se principalmente por três ramos da sua administração, porque nesse tempo a agricultura e as obras publicas pertenciam ainda ao ministério do reino. Na Instrução Pública, Costa Cabral criara a escola da arte dramática e fizera construir o teatro de D. Maria II. Organizara o Conservatório, a Academia de Belas Artes, o museu da Academia, Imprensa Nacional e a Academia Portuense de Belas Artes. Na Administração fizera e pusera em execução o Código Administrativo, que por tantos anos se manteve; organizara em novas bases a Guarda Nacional; fixara o número de empregados e tratara da organização dos arquivos das câmaras municipais, tão preciosos para a história; cuidou de salvar os bens das Misericórdias, Confrarias, etc. Na Agricultura providenciara sobre os celeiros comuns, sobre a criação e aperfeiçoamento dos gados; sobre a companhia das Vinhas do Alto Douro; sobre o despacho e fiscalização dos géneros de consumo na capital. Tratara eficazmente de determinar a lavra das minas, fazendo a legislação que correspondia; abrira estradas, construíra pontes, algumas que se consideravam então, arrojadíssimas tentativas de engenharia, como a pênsil do Porto; fizera grandes plantações de arvoredo nas matas nacionais; mandara enxugar pântanos; construir e levantar diques; procurara tentar um grande esforço para desenvolver a indústria da produção e fabricação das sedas, a que previa um grande futuro. Em suma, não houve nada em que a sua mão não tocasse, marcando tudo com a forte punção da sua iniciativa tão arrojada como organizadora.» Mas a oposição não afrouxava nunca. Costa Cabral promulgou o Novo Código Administrativo em 18 de Março de 1842 e logo a 30 do mesmo mês se forma a coalizão de todas as oposições cartistas dissidentes, capitaneadas pelo próprio irmão, setembristas e miguelistas. Desta luta feroz, para a qual se congraçaram os elementos mais opostos contra o homem que construía, nasceu a revolta de Torres Novas em 1844, com Bonfim à frente, vindo tudo a acabar miseravelmente com a rendição, ás tropas do governo, da praça de Almeida, ultimo reduto dos revoltosos, onde ao contava um dos homens de mais talento oratório e prestigio do país, José Estêvão. Finalmente, a campanha desleal dos adversários que não hesitavam em desacreditar o ministro, à custa das maiores torpezas, campanha cujos ecos ainda se não extinguiram de todo; a sua luta tenaz contra as prevaricações à. custa do tesouro e ainda principalmente a promulgação das célebres leis sobre cadastro e de saúde pública, instigou e concorreu para a sublevação militar no Minho (Maria da Fonte) que iniciada em Abril de 1846, provoca em 20 de Maio a queda do gabinete cabralista. Costa Cabral abandona o poder e logo a sua falta se faz sentir: 5 meses após a sua queda, para evitar a restauração miguelista, o governo vê-se obrigado a pedir a intervenção estrangeira, 16 de Outubro de 1846. Para acudir à situação a 16 de Novembro do mesmo ano, é Costa Cabral nomeado ministro plenipotenciário e enviado extraordinário em Madrid. Mas as lutas entre os patuleias e cartistas, continuavam cada vez mais acesas e o sossego tão desejado não chegava nunca. O conde de Tomar, chamado de Madrid, foi novamente instado a formar ministério. Bem sabia ele a sorte que o esperava, e a ninguém ocultou o seu pesar. Mas era precisa a sua direcção e por isso aceitou, em 18 de Junho de 1849. Então a luta parlamentar foi gigantesca Saldanha, Lavradio, Rodrigo da Fonseca e tantos outros do mesmo destaque, levaram a sua oposição a um ponto nunca visto. A defesa do presidente do conselho correspondeu à violência do ataque. Os seus discursos de então, que correm impressos, são considerados, ainda hoje, um modelo no género. Dir-se-ia que, na agonia da sua carreira politica, a eloquência quisera, por sua vez, vir a completar o grande estadista Mas tudo foi debalde: aberto o exemplo dos pronunciamentos militares, a força predominaria sempre sobre a razão do Estado, por isso quando Saldanha pôs o seu génio militar ao serviço da causa revolucionaria, a luta tornou-se impossível, e a 1 de Maio de 1851 o conde de Tomar pedia a sua demissão à rainha, por cuja causa levara a dedicação ao extremo. Terminara a sua carreira política e o conde desiludido e cheio de desgostos, retirava-se à vida particular, apesar das instancias de muitos dos seus amigos e, (caso curioso) de alguns dos seus inimigos, que, como Rodrigo da Fonseca e Sampaio, tinham a maior admiração pelas qualidades do adversário. O que foi a sua obra de administração, qual o valor do seu génio político, à Historia cumpre avaliar. Por isso nos limitaremos a transcrever algumas linhas dos dois escritores contemporâneos que mais pormenorizadamente estudaram esta época, única na nossa historia e um dos quais, Oliveira Martins, nunca deixava, sempre que podia, de depreciar a obra do ministro de D. Maria li:... em Portugal, os «costumes eram mais soltos e a virulência maior (do que em França). E se ninguém fora ainda atacado dum modo tão cruel, isso prova que ninguém, tampouco, ainda mostrara uma força e um génio tão superiores. Outro Pombal, repetimos, o novo ministro ficaria tão célebre como o antigo, se achasse ainda de pé uma qualquer autoridade social.» (Portugal Contemporâneo, vol. II, pág. 174). «A organização administrativa e a judicial saíram, por obra sua, dos moldes antiquados, que para a justiça remontavam até ás ordenações dos Filipes. Na política, a primeira lei eleitoral e logo com incompatibilidades moralizadoras do sistema, é ele quem a entrega à discussão parlamentar. No fomento, a primeira estrada, o primeiro canal e regularização dos rios, a primeira negociação para a construção duma via férrea, a primeira medida de iniciativa para o ressurgimento das indústrias nacionais, é dele. Na educação, primaria e secundaria, é seu o primeiro grande e metódico impulso. É seu o recrutamento do professorado estrangeiro para ensino das Belas Artes. É seu o teatro nacional para escola de artistas e para incitamento e remuneração à literatura dramática. É seu o primeiro grande jardim da Lisboa, o da Estrela, como indicação precisa para a reforma do antigo Passeio. Nada escapa à perspicaz iniciativa desse homem! Tudo ele trabalhou para realizar ... nos intervalos que lhe deixava a obrigação parlamentar, de contestar as acusações das peitas e concussões.» (Entre Duas Revoluções, de Barbosa Colen, vol. II, pág. 428). Mas o conde de Tomar, o patriota, dos que mais tem amado a sua terra, arredado da política activa, ainda havia de prestar os maiores serviços ao seu país, mas agora num outro campo, o diplomático. Com efeito, a incúria dalguns governos havia criado ao nosso país uma situação mais que precária, pelo que respeitava ás nossas relações económicas com o Brasil; é sabido como as mínimas oscilações na vida da grande república americana, tão rapidamente se fazem sentir entre nós. Pois para dar uma simples ideia da nossa situação e da complexidade do problema a resolver, bastará dizer que a nossa primeira fonte de riqueza, os vinhos portugueses, eram sujeitos nas alfandegas brasileiras a um imposto aduaneiro muito superior no que pagavam os vinhos franceses e espanhóis. Obter portanto uma alteração do regímen pautal, claramente, com manifesto prejuízo para a França e para a Espanha, tal era a dificuldade de cuja solução instantemente se impunha ao nosso governo, sob pena de ruína certa; e como o momento era crítico e o problema difícil ... foi Costa Cabral encarregado de o resolver, sendo para isso nomeado enviado extraordinário e ministro plenipotenciário junto do imperador do Brasil, por decreto de 25 de Abril de 1859. Pouco depois da sua chegada ao Rio de Janeiro, já a acção do ministro se fazia sentir felizmente, e Portugal passara a ser considerado como nação mais favorecida. Foi este um trabalho obscuro e esquecido, mas cuja valia, para qualquer espírito medianamente ilustrado, ó escusado encarecer. Conseguido este desideratum, Costa Cabral voltou para Portugal, retirando-se para Tomar onde a sua vida, mais que modesta para a sua posição, discretamente traduzia bastantes dificuldades financeiras! Assim estava o homem outrora acusado de possuir tesouros fabulosos à custa do país! Anos passados, novamente o conde de Tomar foi buscado no seu retiro. Em virtude dum sério conflito entre o governo português e a cúria romana, suscitado pela nomeação de novos bispos, o conde de Tomar acudindo aos pedidos de Saldanha e de Rodrigues Sampaio (quem tal diria alguns anos antes) foi dirigir a nossa legação junto da Santa Sé, chegando a Roma em Julho de 1870, ainda antes da tomada da cidade Eterna pelas tropas de Victor Emanuel. Esta fase da vida de Costa Cabral é das mais interessantes e só por si bastaria para definir um carácter e um temperamento. Começou no mês de Setembro a investida das tropas italianas contra as muralhas de Roma, colocando em melindrosa situação o corpo diplomático acreditado junto do Vaticano. O momento era critico em vista da entrada em Roma, naquela ocasião de milhares de indivíduos que tinham sido, pelas suas ideias liberais, oprimidos e exilados pelo governo pontifício, e cujo ódio não procurava senão um pretexto para explodir. Mas a sua proverbial coragem não se desmentiu, e profundo conhecedor da alma das multidões, tomou nas conferências com os seus colegas o lugar que lhe cabia: a sua superioridade na conjuntura foi manifesta e como tal aceita sem hesitação por todo o corpo diplomático. A energia, a justiça e a eficácia da sua palavra e da sua acção foram tais que o encarregado de negócios de França traduzia textualmente por estas palavras, todo o reconhecimento que a direcção diplomática portuguesa lhe inspirava: «Monsieur le Comte, vous nous avez sauvés.» Costa Cabral foi pois o homem da situação e tão grande era o seu prestígio que Pio IX o solicitou para servir de intermediário do Vaticano, nas suas negociações com o general Cadorna, cujo acampamento se achava fora da célebre Porta Pia. E quantas vezes no decorrer dessas históricas negociações arriscou a vida, sabem-no bem todos os que a elas assistiram. Dirigindo-se uma vez do Vaticano para o quartel-general dos sitiador, ao atravessar a sua carruagem a Ponte de Santo Ângelo, viu se circundada pela multidão ameaçadora e por pouco não é vitima da sua coragem. E, pormenor interessante, este episodio da sua vida tão fortemente lhe impressionou o espírito que, horas antes de morrer, recordava delirando suavemente, à filha estremecido que velava ao pé do leito, a sua ida ao campo de Cadorna, como se fosse um facto decorrido há pouco; todavia já lá iam 19 anos. Mas apesar de tantos serviços prestados ao Vaticano, este, passado o perigo, manteve com o conde uma certa reserva; tal facto ia filiar-se em duas origens: primeiramente, Costa Cabral, o emigrado da Terceira, o companheiro do rei libertador, o pugnador das ideias modernas, não podia de forma alguma aplaudir e concordar com a tradicional intransigência e limitado reaccionarismo de Pio IX. Em segundo lugar o conde de Tomar havia criado para si, uma situação única nos anais da diplomacia. Ministro junto do papa, frequentava as recepções na corte do Quirinal. Esta situação soube ele sempre mantê-la até que prevendo-se a morte de Pio IX, o conde de Tomar foi elevado à categoria de embaixador, para assim como os representantes das outras três antigas nações católicas, França, Áustria e Espanha, poder exercer o direito de veto na eleição do novo papa, caso os interesses do seu país assim o exigissem. A 20 de Fevereiro de 1878 era eleito papa o arcebispo de Perugia, Joaquim Pecci, Leão XIII, o qual se mostrou sempre bom amigo do novo embaixador. Nesse mesmo ano, um decreto, redigido nos termos mais enaltecedores por António Rodrigues Sampaio (o Sampaio da Revolução!) elevava o à categoria de marquês. A 6 de Fevereiro de 1885, falecia sua esposa, a marquesa de Tomar, dama da rainha D. Maria Pia, condecorada com a ordem de piaria Luísa de Espanha. No Verão seguinte o marquês partiu com sua filha, de Roma para Castellamare, nos subúrbios de Nápoles: aí adoeceu gravemente, seguindo então para Portugal em princípios de Setembro, a bordo da corveta Estefânia, sob o comando dum de seus filhos. Finalmente em Julho de 1889, acompanhado pela filha predilecta, partiu para a Foz do Douro, onde veio a falecer no 1.° de Setembro. Na igreja da Foz fizeram-se lhe soleníssimas exéquias, seguindo o seu corpo para Lisboa, onde no dia 4 ficou depositado em jazigo de família no cemitério Ocidental. Costa Cabral faleceu no Porto, nessa cidade que tanta gloria lhe dera.

O marquês de Tomar deixou 5 filhos: Bernardo da Costa Cabral, 2.º conde de Tomar, bacharel formado em filosofia, ministro e enviado extraordinário, par do reino, etc. (V. o artigo seguinte); João Read da Costa Cabral, bacharel formado em direito, governador civil em vários distritos; Fernando Augusto da Costa Cabral, antigo oficial na marinha inglesa, contra-almirante, condecorado com a medalha da Crimeia; cavaleiro da ordem da Torre o Espada, etc., ajudante de campo d'el rei D. Carlos; D. Luísa Maria da Costa Cabral, ilustrada senhora, a quem devemos as notas inéditas acima e a gentil cedência dum dos melhores retratos do biografado; Francisco de Assis da Costa Cabral, coronel de cavalaria, ajudante de campo do rei D. Manuel. O marquês de Tomar era par do reino, conselheiro de Estado; tinha a grã-cruz de Cristo, idem da Rosa do Brasil, de S. Gregório Magno da Águia Branca da Rússia, de Pio IX, de S. Maurício e S. Lazaro de Itália, de Nitchen Iftiar de 1.ª classe, em brilhantes da Turquia, de Leopoldo da Bélgica, da Ordem Ernestina de Saxe Cobourg, de Carlos III de Espanha com grã Colar de numero, e era commendador da Ordem de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, cuja comenda em brilhantes lhe foi oferecida, como homenagem por um grupo de admiradores do Porto.

O título de conde foi concedido por decreto de 8 de Setembro de 1845, e o de marquês por decreto de 11 de Julho de 1878. O seu brasão de armas é o mesmo de seu irmão, conde de Cabral, que já vem descrito no respectivo artigo, no Portugal, vol. II, pág. 570. Entre os muitos artigos biográficos que se tem publicado acerca deste notável estadista, mencionaremos A Resenha das familias titulares e grandes de Portugal, de Silveira Pinto e visconde de Sanches de Baena, vol. II, pág. 65'3 e seguintes; Diccionario Popular, vol. XVI (suplemento), pág. 315 e seguintes; A Correspondencia de Coimbra de Setembro de 1889, etc.


Transcrito por Manuel Amaral

Portugal - Dicionário Histórico, Corográfico, Heráldico, Biográfico, Bibliográfico, Numismático e Artístico, Volume VII, págs. 125-128.

terça-feira, 2 de maio de 2017

Adelino Amaro da Costa

Presidente do grupo parlamentar do CDS na Assembleia Constituinte, foi Ministro da Defesa do governo da AD. 

Engenheiro civil pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa, em 1966, colaborou com Veiga Simão no ministério da Educação, enquanto director do Gabinete de Estudos e Planeamento. 

Fez o serviço militar na Marinha de guerra. 

Em 1975, após o 25 de Abril, fundou com Diogo Freitas do Amaral o Centro Democrático-Social (CDS), com as dificuldades impostas pela radicalização da política portuguesa, que dificultaram a implantação do partido a nível nacional, devido aos boicotes sucessivos à sua actividade partidária, sendo considerado nessa época quase como um partido neo-fascista. 

As eleições para a Assembleia Constituinte legitimaram de uma vez por todas o partido, que conseguiu eleger 16 deputados para a câmara legislativa, formando um grupo parlamentar. Se não teve grandes intervenções de fundo, distinguiu-se nessa época como um tribuno sagaz, irónico e competente, tornando-se o principal ideólogo do partido. 

Em 1978 ajudou a celebrar o acordo político que viabilizou o 2.º governo constitucional, dirigido por Mário Soares, e que teve a participação de membros do partido, como Sá Machado e Rui Pena. No ano seguinte, com o falhanço do acordo político com o PS, negociou pelo CDS a criação da Aliança Democrática (AD), que juntou o PPD, o PPM e o CDS, numa coligação eleitoral, que se apresentou às eleições em todos os círculos eleitorais, à excepção da Madeira. 

Após os quatro governos de iniciativa do presidente da república Ramalho Eanes, que se sucederam de Agosto de 1978 a Janeiro de 1980, completando parcialmente a 2.ª legislatura da Assembleia da República, após a exoneração de Mário Soares de primeiro ministro, as eleições intercalares de 2 de Dezembro de 1980 deram a maioria absoluta à AD. 

Amaro da Costa foi nomeado ministro da defesa nacional, tendo sido empossado com todo o restante governo em 3 de Janeiro de 1980, o primeiro ministro civil da defesa desde o 25 de Abril de 1974. 

A passagem pelo governo foi muito curta, devido à sua morte no desastre de aviação ocorrido em Camarate na noite de 4 de Dezembro de 1980, quando se dirigia de avião com o primeiro ministro Sá Carneiro e respectivas mulheres para o Porto, para um comício eleitoral no âmbito da campanha para a Presidência da República, que decorria nessa altura. 

A queda do avião Cessna foi considerado pelas instituições do estado e pelo sistema jurídico português como um desastre, mas algumas das várias comissões parlamentares de inquérito consideraram o acontecimento como um atentado.

Informação retirada daqui

domingo, 30 de abril de 2017

Sidónio Pais

 

  Nenhum presidente da 1ª República foi tão amado e odiado como Sidónio Pais. Este major, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros em Berlim de 1912 a 1916, é difícil de definir. Na Alemanha ficara fascinado com a obediência e aparato bélico das tropas alemãs: Em Portugal, via o sistema parlamentar, com os partidos sempre em litígio, não levar a bom rumo as causas da República. 
             Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais, nasceu em Coimbra em 1 de Maio de 1872. Era filho de Sidónio Alberto Pais e de Rita da Silva Cardoso Pais. Entrou para a Escola do Exército com 16 anos, onde tirou primeiro o curso de Artilharia. Em 1895,já tenente, frequenta a Faculdade de Matemática, em Coimbra, onde será catedrático da cadeira de Cálculo Diferencial e Integral. Sabia-se que não nutria simpatias pela monar-quia, mas, como militar, não entrou cedo na vida política activa. Logo após o 5 de Outubro é senador e fez parte do ministério de Manuel de Arriaga como ministro do Fomento e depois como Ministro das Finanças. 
             Era apreciado como matemático. Em 1912 está em Berlim como Ministro dos Negócios Estrangeiros, mas como já se disse, regressa em Março de 1916. É então colocado na secretaria desse ministério. Militava já no Partido Unionista de Brito Camacho. 
             Não é demais repetir que o ambiente de pobreza e desemprego no nosso País era visível. Os Unionistas tinham aguardado que Afonso Costa formasse novo governo em que estes tivessem intervenção. Mas Sidónio Pais já preparara o golpe e, no dia 5 de Dezembro de 1917, o movimento revolucionário estala. Triunfará a 8 de Dezembro. No "Diário do Governo", Sidónio manda publicar um texto que termina assim: "Cidadãos! A Revolução é feita em nome da Liberdade contra a tirania e a verdadeira liberdade exige calma nos espíritos, respeito por a vida e propriedade alheia e confiança na autoridade. Viva a Pátria! Viva a República". Depois é proclamada uma Junta Revolucionária. Como já foi dito, o Presidente Bernardino Machado é destituído e Sidónio assume as pastas de Presidente do Ministério (Governo), da Guerra e dos Negócios Estrangeiros. Em 27 de Dezembro é decretado que "o Presidente do Ministério assumirá as funções de Presidente da República". É a ditadura. Depois segue-se a escalada das proibições. Suspensão do jornal "Mundo", porta-voz dos partidários de Afonso Costa, e dos jornais monárquicos, republicanos ("A República" de António José de Almeida, e a "Luta", de Brito Camacho), socialistas, católicos, anarquistas ou independentes. A 7 de Abril de 1918 o Congresso dos Unionistas rompe com o seu antigo membro, Sidónio Pais. Este é eleito Presidente da República em 9 de Maio de 1918. 
             Sidónio declarou-se "chefe de todos os portugueses", "mandatário da nação" legitimado pela eleição por sufrágio universal, o que acontecia pela primeira vez. Chegou a dizer que a sua "consciência interpreta milhões de consciências". 
             Mas Sidónio era extremamente popular. Era conhecido pelas suas aventuras amorosas e passou a andar muito aprumado na sua farda, que antes de ser Presidente raramente vestira. Rodeava-se de um séquito e em todas as suas aparições públicas era tocado o Hino Nacional. 
             Pessoas, poucas, que ainda hoje se lembram dele, sem a noção geral da situação política, dizem que gostavam muito da sua maneira de ser e que tinham muita esperança que o País se "endireitasse" sob o seu domínio. Este típico militar viajava por todo o país e gostava de sentir a multidão a ovacioná-lo. Dizia que tudo ia ser melhor. 
             Em prol dos mais necessitados, criou a chamada "sopa do Sidónio", que consistia na distribuição de refeições baratas à população de Lisboa. Só que esta não foi, ao contrário do que se julga, criação dele, mas apenas um aproveitamento das "Cozinhas Económicas" criadas pela duquesa de Palmela e pela marquesa de Rio Maior durante a monarquia, no reinado de D. Carlos. 
             Durante a presidência de Sidónio, foram reatadas as conversações com o Vaticano, revista a Lei da Separação da Igreja e do Estado (que fora uma das maiores conquistas do Governo Provisório, em 1911) e, a partir de Fevereiro desse ano, a Igreja Católica podia ter estabelecimentos de assistência em Portugal. Deixaram também de haver restrições ao culto e ensino nos seminários. Sidónio mostra-se assim como um protector da Igreja Católica, o que faz granjear ainda mais popularidade. 
             A dois de Março, Sidónio Pais esteve presente na Sé de Lisboa no "Te Deum" pelos soldados mortos na Grande Guerra. Para muitos, Sidónio representava mesmo "a paz religiosa". No entanto, esta aproximação à Igreja não se devia apenas à iniciativa de Sidónio Pais. Por motivos humanitários fora permitida a presença de padres junto dos nossos soldados, no teatro da guerra, desde 1917. Longe da Pátria, doentes, muitos deles, apesar da República, profundamente religiosos. 
             Durante o seu curto mandato, Sidónio estava sempre entre a multidão. O culto da personalidade era importante para ele. Quando grassou a mortífera epidemia de tifo, Sidónio visitou diversos hospitais e assistiu às cerimónias religiosas por morte das vítimas. Também impressionado com a situação dos presos, nas prisões do Porto, resolve amnistiá-los. Para o historiador António Reis, "o sidonismo foi uma mescla de poder pessoal, repressão e perseguição política, confusão administrativa e algumas medidas demagógicas, com um duplo objectivo: recuo e progressiva anulação da participação de Portugal na guerra, construção de uma nova ordem institucional - a chamada "República Nova" alicerçada na "mística do chefe", em antecipação das experiências fascistas que irromperam na Europa nos anos 20". 
             A derrota do nosso Corpo Expedicionário na batalha de La Lys, em 9 de Abril de 1915, onde morreram 327 oficiais e 7098 praças, o perigo do retomo à monarquia, a revolta republicana mal sucedida de 13 de Outubro em Coimbra e Évora, a União Operária Nacional que gritava nas ruas "Abaixo Sidónio Pais", faziam adivinhar que algo inesperado podia acontecer. 
             A Guerra acabou com a assinatura do armistício em 11 de Novembro de 1918 e o rei Jorge V da Grã Bretanha envia uma mensagem a Sidónio Pais realçando o valor dos laços de amizade entre os dois povos. Mas já o manto da morte rondava Sidónio. Escapou de um atentado em 5 de Dezembro de 1918, quando presidia à cerimónia da condecoração dos sobreviventes do cruzador "Augusto Castilho" que tinham enfrentado com valentia os alemães. Mas não sobreviveu ao segundo. Na noite de 14 de Dezembro de 1918, dirigia-se ele para a estação do Rossio a fim de apanhar um comboio para o Porto. Acompanhavam-no um filho e um irmão, entre outros. Quando a multidão que sempre o esperava o vê surgir, ovaciona-o como sempre. Entretanto a banda da Guarda Nacional Republicana começara a tocar o hino nacional. Sidónio vaidoso, ao ver tamanha multidão terá dito "Que quantidade de gente! Parece que esperam o imperador da Rússia!". É então baleado à queima-roupa, por balas vindas de duas direcções. Apercebendo-se do sucedido, terá dito: "Mataram-me! Morro, mas morro bem! Salvem a Pátria...". É conduzido o hospital onde falece. Um dos assassinos terá morrido e o outro foi preso. 
             O jornal "O Século" de 15 de Dezembro de 1918 relata que "em seguida ao crime, estabeleceu-se tumulto e confusão e ficaram mais quatro pessoas mortas e várias feridas, entre elas o irmão e o filho do sr. dr. Sidónio Pais". Como Nicolau II, o último czar da Rússia, Sidónio foi assassinado de noite e no mesmo ano, apenas com escassos meses de diferença. 
             Todo o país ficou consternado com o crime. De todos os países chegam condolências e jornalistas para cobrirem o acontecimento. A viúva e a filha de Sidónio chegaram de Coimbra para as exéquias. Estavam também presentes os seus outros quatro filhos. O corpo do Presidente será embalsamado e ficará em câmara ardente nos Jerónimos, por onde passaram milhares de pessoas. 
             Os jornais referiram mais de uma vez a presença da Sra. Condessa de Ficalho que apareceu logo que soube da morte de Sidónio Pais, bem como as irmãs Isabel e Stela Freitas Branco. Como é sabido, Sidónio Pais tinha uma numerosa corte de admiradoras de todas as classes sociais que lhe prestava uma autêntica veneração. Era jovem e bem parecido, muito aprumado. Morreu aos 46 anos.
             O Parlamento português, nos termos do parágrafo 32 do artigo 382 da Constituição da altura elegeu então para Presidente da República o Secretário de Estado da Marinha e interino dos Estrangeiros contra-almirante Canto e Castro Silva Antunes.

Informação retirada daqui

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Biografia de Maria de Lourdes Pintassilgo

domingo, 23 de abril de 2017

Biografia de José Estêvão Coelho de Magalhães

n.      26 de novembro de 1809.    
f.       3 de novembro de 1862.

Notável orador político, bacharel formado em direito pela Universidade de Coimbra, jornalista, deputado, etc.

Nasceu em Aveiro a 26 de novembro de 1809, faleceu em Lisboa a 3 de novembro de 1862. Era filho do médico Luís Cipriano Coelho de Magalhães (V. este nome), e de sua mulher, D. Clara Miquelina de Azevedo Leitão.

Quando em 1810, os exércitos franceses invadiram Portugal, vendo-se o Dr. Magalhães obrigado a fugir de Aveiro, mandou o filho para casa da avó materna, D. Ana Joaquim Ribeiro da Costa, que era muito extremosa pelo neto, e de cuja educação cuidou até que em 1821 seu pai novamente o chamou para junto de si. José Estêvão teve então o grande desgosto de perder sua mãe. Seu pai tratou da sua educação literária, e mandou-o para a aula de instrução primária dum professor de Aveiro, chamado Custódio José Baptista, e depois passou a ouvir as lições de latim de José Lucas da Silveira, estudando juntamente lógica com Francisco Inácio de Mendonça, e retórica com o padre Manuel Xavier, poeta e pregador muito respeitado. Terminados os estudos preparatórios, o moço estudante desejava seguir a vida eclesiástica, mas o pai tratou de o dissuadir dessa ideia, e José Estêvão matriculou-se em 1825 no 1.° ano de direito na Universidade de Coimbra. Cheio de ardor, de crenças, de aspirações e de mocidade, sentindo o fogo da eloquência que o arrebatava, começou a manifestar, nos clubes políticos que se formatam entre os académicos, o seu decidido amor à liberdade e o arrojo e energia de que mais tarde nos campos da batalha, nas lides da imprensa e nas lutas parlamentares, deu tão elevados testemunhos.

José Estêvão continuava a cursar as aulas no meio da grande agitação que lavrava no país, e chegando o mês de maio de 1828, em que os liberais resolveram protestar pela força contra o procedimento do infante D. Miguel, o moço estudante entrou de corpo e alma na conspiração, que abortou, fazendo parte do batalhão académico que então se organizara, e em que tinha o posto de cabo. Começaram logo as perseguições de que havia de ser vítima, e aos dezanove anos de idade, ainda incompletos, teve de emigrar para a Galiza, com os seus companheiros, e embarcando em Ferrol com destino a Inglaterra, e desembarcando em Plymouth, ali se conservou até ao momento de poder ir associar se aos liberais que levantaram a sua bandeira na ilha Terceira, Com o seu modesto posto de cabo da companhia de artilheiros do batalhão académico serviu José Estêvão durante todo o tempo que as forças constitucionais se conservaram nos Açores, e não tendo entrado na acção da Vila da Praia por estar destacado no interior da ilha Terceira, tomou parte na conquista das ilhas do arquipélago, e com o exército de D. Pedro embarcou para Portugal, vindo desembarcar no Mindelo em 8 de julho de 1832. Os bravos académicos foram encarregados da defesa da Serra do Pilar, e da forma como se houveram nos ataques dos dias 13 e 14 de outubro do mesmo ano de 1832, o general Ponce de Leão, mais tarde visconde da Serra do Pilar, no seu relatório ao governo elogiava muito os voluntários académicos e o seu comandante, especializando no combate do dia 13, José Estêvão Coelho de Magalhães, José Silvestre Ribeiro e o alferes Alexandre Carvalhal Silveira, que encarregados dos trabalhos de fortificação, dirigiram o estabelecimento da brecha debaixo dum vivíssimo fogo da artilharia, e no dia imediato tiveram um comportamento igual ao dos seus camaradas. Por essa ocasião José Estêvão recebeu o hábito da Torre e Espada. Continuando a servir no cerco do Porto como voluntário académico, deu novamente provas da sua bravura em diferentes ocasiões, e sendo despachado 2.º tenente de artilharia em 4 de abril de 1833, logo na acção de 25 de julho se assinalou no reduto que se tornou célebre com o nome de flecha dos mortos. Acompanhado unicamente de vinte soldados, defendeu tenazmente esse ponto das fortificações, e vendo cair mortos a seu lado os seus subordinados, sem perder o ânimo, ia sempre continuando o fogo, dirigindo as pontarias com tal acerto, que nas fileiras miguelistas era grande o estrago. Quando lhe restava apenas um soldado e não podia, portanto, continuar o serviço da peça, ainda se conservou no seu posto, até que o oficial inimigo entrou no seu reduto, e então com o atrevimento que lhe era próprio, chamuscou as barbas do adversário com a vela mista que tinha na mão, e sob um chuveiro de balas deitou a correr para a retaguarda a unir-se ás forças liberais. Por essa heróica defesa recebeu José Estêvão e grau de cavaleiro da Torre e Espada, por decreto de 15 de agosto de 1833. mas como essa distinção já lhe havia sido conferida, conforme citámos, foi em 7 de fevereiro de 1834 elevado a oficial da mesma ordem, por um decreto muito honroso. Nos últimos tempos da campanha José Estêvão fez parte das forças, que ás ordens de Saldanha, continuaram a luta contra os miguelistas, e terminada a guerra foi promovido a 1.º tenente em 24 de julho de 1831. Em outubro seguinte matriculou-se no 3.° ano da faculdade de direito, porque tinha sido dispensado do exame do 2.º ano, pelo decreto de 8 de março de 1833, que deu perdão do acto aos académicos, que se alistaram no exército constitucional.

Em 1837 concluiu o curso de Direito, e estava resolvido a deixar a carreira militar para ir exercer a advocacia na cidade do Porto, mas o pai contrariou-o nesse desejo, e fazendo-o eleger representante dos povos de Aveiro, no congresso constituinte que se ia reunir depois da revolução de Setembro, conduziu-o assim ao campo em que tanto se havia de assinalar. Foi na tribuna parlamentar, sustentando os princípios e as ideias liberais, ou defendendo a honra da pátria ultrajada por nações mais poderosas, que José Estêvão ganhou os direitos à imortalidade e o nome de notável orador português. Entusiástico democrata acolheu com aplauso a revolução de Setembro de 1836, pronunciou o seu primeiro discurso parlamentar em 5 de abril de 1837, que foi como uma profissão de fé politica, o seu programa de partidário ardente das ideias progressistas, que queria ver afirmadas na constituição que se estava discutindo, e foi decretada no anho seguinte. Rodrigo da Fonseca Magalhães e Costa Cabral, inimigos da constituição democrática, tiveram nele um dos seus mais terríveis adversários. Não se contentando com a tribuna do parlamento, e julgando que para melhor propagar as suas ideias, era preciso ter um jornal à sua disposição, fundou, com Manuel António de Vasconcelos, O Tempo, cujo primeiro número saiu a 29 de janeiro de 1838, sendo o artigo de fundo escrito por José Estêvão, que nele combatia os planos financeiros do governo e as propostas feitas pela direcção do Banco de Lisboa, para um empréstimo ao tesouro. A oposição o de José Estêvão não se limitava, porém, só aos seus artigos no Tempo e aos seus discursos no parlamento e no Clube dos Camilos, que foi uma das sociedades politicas dessa época, que mais celebridade, alcançou; também José Estêvão, com a sua palavra inflamada, não se cansava de verberar os actos do ministério, que julgava não ter força necessária para defender a revolução contra as intrigas e manejos dos adversários dela. Discutiam-se nos Camilos as proposições mais exaltadas, e como se sabia que a rainha só constrangida havia aderido à revolução, alguns membros do clube envolviam o trono nos seus ataques ao ministério; mas José Estêvão, que na sua profissão politica, dissera querer um rei só com ministros responsáveis a executar só, conservava-se firme nessas ideias. 

Terminada a missão do congresso, reuniram-se em dezembro de 1838 as novas câmaras, e José Estêvão, nomeado relator da comissão da resposta ao discurso da coroa, reprovou com toda a energia a marcha politica do gabinete. Este ministério durou até abril de 1839, em que se formou outro gabinete presidido pelo barão da Ribeira de Sabrosa. A este ministério prestou José Estêvão o seu apoio franco e decidido; a 26 de novembro, eram chamados aos conselhos da coroa Rodrigo da Fonseca Magalhães e Costa Cabral, cujos sentimentos cartistas eram bem conhecidos, e por isso José Estêvão fez a esse ministério uma guerra crudelíssima tanto no parlamento como na imprensa. A demissão do barão da Ribeira de Sabrosa e a formação do ministério, que lhe sucedeu, foram atribuídas à influencia de lord Palmerston e do ministro britânico em Lisboa, e por isso José Estevão escreveu uma sátira pungentíssima, que apareceu no Atleta do Porto, sendo depois transcrita no primeiro numero na Lança, que então começou a publicar-se em Lisboa. Essa sátira, em que se contava o baptizado do ministério, tornou-se célebre, e nela se encontra bem desenhada a situação do governo no princípio do ano de 1840. Reunidas as cortes em janeiro deste ano, a oposição dirigiu ao governo os mais vivos ataques na discussão da resposta ao discurso da coroa, e foi nesse debate que José Estêvão teve por principal adversário outro grande orador, Almeida Garrett, que pertencendo ao centro da câmara, era então um dos defensores do ministério. Foi na sessão de 6 de fevereiro de 1840 que José Estêvão pronunciou o seu primeiro discurso contra o projecto de resposta ao discurso da coroa, e foi ali que ele aludiu ao Porto Pireu, o que deu causa à celebrada réplica de Garrett, que ficou conhecida na história parlamentar portuguesa pelo nome de discurso do Porto Pireu. O debate entre estes dois contendores notáveis, tornou-se imponente durante algumas sessões. Em vista do número e qualidade dos deputados que contava a oposição, entendeu o governo que, devia propor à rainha a dissolução das cortes, mas para a nova legislatura foi ainda reeleito José Estêvão, que continuou a sua luta pertinaz contra o ministério, pronunciando, além de outros, dois importantes discursos, um na sessão de 3 de junho sobre a eleição do 1.° circulo do Porto, e outro acerca do projecto de lei sobre o censo eleitoral. Foi nesse ano de 1840, que José Estêvão alcançou em concurso público a cadeira de economia politica da Escola Politécnica, tendo por competidor nesse certame José Maria Eugénio de Almeida. Deixou muitos apontamentos das suas lições, publicando o excerto dum deles, a respeito da emigração, no Arquivo Pitoresco de 1862. Foi José Estêvão, com o seu amigo e patrício Manuel José Mendes Leite, que fundou a Revolução de Setembro, jornal que principiou a publicar-se em 22 de junho de 1840. António Rodrigues Sampaio foi também um dos redactores, e com a sua pena enérgica e virulenta tornou-se sócio inseparável de José Estêvão nas lutas politicas, e nos perigos e trabalhos que sofreram. 

Depois de levada a cabo a restauração da Carta em 1842, José Estêvão continuou na Revolução de Setembro a combater o governo mostrando-se também vigoroso na câmara, onde entrou como representante de Lisboa, porque o ministério tais diligencias empregou para lhe contrariar a eleição, que o distinto deputado não pôde fazer vingar a sua candidatura por Aveiro, que sempre o elegera. Nessa legislatura a oposição contava um pequeno numero de deputados, e embora entre eles se contassem alguns dos homens mais distintos do partido liberal, as suas vozes eram abafadas pela, importância numérica da maioria, e o governo tinha a certeza da aprovação de todos os seus actos. Foi então que António César de Vasconcelos, depois conde de Torres Novas, saindo de Lisboa para aquela vila, em fevereiro de 1844, se pôs à frente do Regimento de Cavalaria n.º 4, e levantou o grito de revolta contra o ministério. José Estêvão e muitos outros militares e paisanos do partido progressista, foram juntar-se a César de Vasconcelos, o qual, com as forças que pôde reunir, marchou sobre Almeida. José Estêvão fora mandado antes a essa praça para dispor e preparar a revolução popular nas províncias do norte, e lá estava ainda quando as tropas do governo, sob o comando do conde de Fonte Nova, puseram a Almeida um apertado circo. A posição dos sitiados agravava-se de dia para dia com a falta de víveres, e era indispensável que os povos do norte se levantassem para chamar a atenção das forças do governo, pois doutro modo a praça fatalmente havia de capitular em pouco tempo. No meio da irresolução dos chefes e da desanimarão que já começava a manifestar-se entre os soldados, José Estêvão ofereceu-se para atravessar as linhas do inimigo e ir preparar a revolução na Beira e Trás-os-Montes. Na noite de 7 de abril, com o maior segredo e as possíveis precauções, saiu da praça pela paterna de S. João de Deus, acompanhado de João Bernardino da Silva Borges, Germano José Guedes, António Maria, proprietário na vila de Almeida e um guia prático daqueles sítios. Caminharam toda a noite espreitando o movimento das patrulhas dos sitiantes, até que chegaram de madrugada a uma ceara de centeio, onde o guia os deixou para se ir orientar no terreno. Voltando pouco depois, anunciou-lhes que estavam perdidos. José Estêvão decidiu caminhar até um outeiro próximo para dali descobrir campo. Apenas chegaram ao alto, as cornetas e os tambores das tropas do governo e um tiro de peça disparado contra a praça, demonstraram a José Estêvão e aos seus companheiros que estavam na retaguarda do quartel general do conde de Fonte Nova, e que por trás deles ficava a raia portuguesa. Desceram o outeiro, tendo já nascido o sol, e depois duma marcha forçadíssima passaram ás nove horas da manhã o rio que divide Portugal da Espanha. A pouca distância do lugar onde descansaram, viram um pastor de cabras, e chamaram-no para junto de si; o qual vinha acompanhado duma rapariguinha loura e esperta, que foi um grande auxiliar para José Estêvão e dos seus companheiros, porque tendo-lhe feito perceber a sua situação e o estado de fraqueza em que estavam, imediatamente a rapariga lhes improvisou um almoço com o leite das cabras e um pedaço de pão de centeio que o pastor possuía. José Estêvão informou-se que estavam na aldeia de Almofala, e como tinha ali um amigo, mandou pedir-lhe que viesse ter com ele. Não tardou que aparecessem três homens que levaram os fugitivos para a casa duma fazenda próxima, onde foram servidos com um bom jantar, tudo feito com as maiores precauções, porque a raia estava cheia de tropas espanholas. Pela meia-noite os amigos de Almofala mandaram três boas cavalgaduras, em que os revolucionários montaram, e guiados por um contrabandista marcharam para Subradillo, onde se esconderam dentro dum palheiro, e ali estiveram o dia todo. Às nove horas da noite seguinte marcharam sobre o Douro, que atravessaram numa barca espanhola. Esconderam-se depois todos três atrás dumas grandes pedras que ficavam a pouca distância, e ao romper da manhã destacou José Estêvão o Guedes para Moncorvo, com cartas para os setembristas dali. A este tempo, já Costa Cabral havia mandado a todos os governadores civis das diferentes províncias do reino, uma portaria circular, em que se oferecia o prémio de 2.000$000 réis à pessoa que apresentasse ao governo a cabeça de José Estêvão. Depois de vinte e quatro horas voltou o Guedes com muitos homens do Moncorvo, amigos pessoais e políticos de José Estêvão, que todos juntos marcharam logo para Freixo de Espada à Cinta. Naquela vila encontrou já todos os elementos revolucionários da província, que puseram à disposição de José Estêvão o dinheiro enviado pelo centro revolucionário do Porto. Dois dias depois marcharam todos para Moncorvo, e os setembristas dali propuseram que se fizesse imediatamente um grande pronunciamento popular em toda a margem do Douro contando com o destacamento de Cavalaria 6 e com a Guarda Nacional de Vila Flor, Foz Côa e Mirandela. José Estêvão opôs-se ao pronunciamento, receoso da pouca segurança dos meios. Destacou para Chaves João Bernardino e para Bragança Germano José Guedes, com instruções para se entenderem com os setembristas daqueles dois pontos, e intentarem o levantamento dos depósitos de recrutas de Caçadores 3, Infantaria 13 e Cavalaria 6, e ele foi estabelecer a sua residência em Murça, como ponto central. Este plano falhou, porque todos os elementos com que José Estêvão contava em Chaves e Bragança, tinham sido inutilizados pelo governo. Depois desta tentativa em que se perdeu muito tempo, decidiu afinal José Estêvão o pronunciamento popular da província, e com esse fim mandou João Bernardino para Veiga de Lila, o qual, de acordo e debaixo da direcção de Júlio do Carvalhal, conseguiu levantar algumas forças populares na montanha auxiliadas pelos setembristas influentes de Vila Pouca de Aguiar. Tudo estava pronto e habilmente preparado para o dia designado. José Estêvão devia sair de Murça com os populares que estivessem armados, e marchar com eles a tomar o comando das forças revolucionadas por Júlio de Carvalhal, enquanto nos outros dois pontos da província os demais caudilhos, já, prevenidos, levantariam simultaneamente o grito a favor da causa sustentada em Almeida. No dia designado para a partida de José Estêvão, recebeu se a notícia da capitulação da praça, e soube-se que, as forças cabralistas marchavam sobre Trás-os-Montes. José Estêvão ainda tentou resistir, mas os ânimos estavam desmoralizados, e os populares abandonaram-no. Nestas circunstancias partiu sozinho para Espanha pela raia de Castela, e foi encontrar-se com os emigrados em Salamanca, onde entregou o dinheiro que tinha recebido no Porto para acudir ás necessidades da emigração, e pedindo licença a César de Vasconcelos, tomou passaporte para Paris.

Pouco depois dessa revolta, na sessão de 18 de outubro de 1844, Passos Manuel proferiu um notável discurso em que se referiu a José Estêvão com algumas palavras muito elogiosas. José Estêvão conservou-se quase dois anos em Paris, voltando depois da revolução de maio de 1846, porque só então é que puderam regressar a Portugal os emigrados de Almeida. Apenas chegou a Lisboa tomou parte activa na política, e de acordo com António Rodrigues Sampaio e com os seus amigos políticos redigiu o programa da Associação eleitoral setembrista, que o golpe de estado de 6 de outubro não deixou pôr em pratica. Depois de andar por alguns dias escondido em diferentes casas, disfarçou-se com hábitos eclesiásticos, e passou a Salvaterra, donde em companhia de César de Vasconcelos foi a Santarém promover a revolução a favor da junta do Porto. Com o mesmo intento visitou as Caldas, Alcobaça e Nazaré, e voltando a Santarém foi nos princípios de dezembro mandado a Setúbal para organizar a defesa dessa terra, e com as forças que pudesse reunir, tentar um golpe de mão sobre Almada. Chegou a Setúbal na madrugada de 10 de dezembro, acompanhado pelo seu ajudante de ordens Domingos Ardisson, e fez logo organizar uma comissão delegada da junta do Porto, mas não se encontrando ali armas nem munições, desistiu do projecto de fortificar a vila, que pouco depois teve de abandonar precipitadamente, porque ao anoitecer do dia 11 chegou a noticia da aproximação das tropas de Lisboa, que estavam em Azeitão sob o comando do general visconde de Setúbal. José Estêvão marchou com as suas forças para Alcácer do Sal, e unindo-se ali com o célebre Galamba (V. este nome), seguiram todos para Évora. Encontrando-se a meio caminho com as tropas do comando do conde de Melo, marcharam todas essas forças do partido da junta para Alcácer do Sal, e daí para Águas de Moura, onde chegaram no dia 23 com a ideia de atacarem Setúbal no dia seguinte. Segundo as ordens recebidas nessa noite, o conde de Melo aproximou-se do Tejo, mas tendo em Canha na manhã de 25 recebido participação da derrota de Torres Vedras, voltou para Évora, e daí mandou José Estêvão e Anselmo José Braamcamp ao Algarve para nessa província levantarem novas forças e obterem os meios pecuniários indispensáveis para a continuação da guerra civil. Do Algarve vieram reforços ao general da junta, que nomeou José Estêvão seu quartel mestre general. Nesta qualidade serviu o valente tribuno o resto da campanha, até que a intervenção estrangeira veio pôr termo a essa renhida luta, ajustando-se a convenção de Gramido, assinada em 30 de junho de 1847. O partido setembrista que se vira obrigado a depor as armas, preparou-se logo para tomar parte activa nas eleições de deputados, e José Estêvão, como um dos membros mais importantes desse partido, promoveu o primeiro meeting eleitoral que se reuniu em Lisboa, e nele falou com a sua habitual eloquência, arrebatando com as suas palavras entusiásticas, todos os que assistiram a essa assembleia. Tais foram, porém, os meios empregados pelo governo para afastar José Estêvão do parlamento, que ele não pôde alcançar ser eleito por Aveiro, sua terra natal, e até 1851 viu-se obrigado a limitar a sua oposição ao ministério a alguns artigos na Revolução de Setembro.

Com a mudança politica de 1851, que se tornou conhecida pelo nome de Regeneração, José Estêvão voltou a ter assento na câmara dos deputados, e defendendo com todo o vigor o impulso dado pelo governo aos melhoramentos materiais, ele próprio apresentou um projecto para a construção do caminho de ferro de Vila Nova da Rainha ao Porto, e segundo o qual os trabalhos deviam começar infalivelmente no 1.° de janeiro de 1853. Com a queda do gabinete regenerador e a entrada no poder o ministério histórico, José Estêvão passou a militar nas fileiras da oposição, e em vários discursos acentuou bem as suas ideias políticas. Este ministério presidido pelo duque de Loulé foi substituído em 1859 por um gabinete regenerador, ao qual José Estêvão prestou todo o seu apoio; havendo, porém, este ultimo ministério pedido a sua demissão em 1860 sem o comunicar aos homens mais importantes do seu partido, o grande tribuno magoou-se profundamente com o que ele tomou por desconsideração. As suas relações com o partido regenerador esfriaram bastante, até que rebentando a questão das irmãs da caridade francesas, se romperam de todo, porque não quis acompanhar os regeneradores no terreno que escolheram, e pôs-se deliberadamente ao lado do ministério progressista histórico, que se mostrava disposto a não consentir que aquelas religiosas viessem introduzir no ensino português um elemento reaccionário. Foi um dos seus mais notáveis discursos o que pronunciou nessa ocasião, ocupando a atenção da câmara e das galerias, repletas de espectadores, durante duas sessões sucessivas. Desde então parece ter começado a pensar na organização dum partido novo. Voltando o duque de Loulé ao poder, foi dissolvida a câmara dos deputados e José Estêvão, que se apresentou candidato por Aveiro, dirigiu aos seus eleitores uma carta com a data de 15 de abril de 1861, em que apresentava o novo partido que começava a formar-se, declarando os motivos porque se organizara e o plano que se propunha a seguir. Para defender na imprensa o novo partido, criou Freitas de Oliveira o jornal Liberdade, que principiou a publicar-se a 26 de junho de 1861, sendo o primeiro artigo escrito por José Estêvão. Entrando no parlamento, logo na discussão do discurso da coroa desenvolveu o seu programa político. Foi também notável o seu discurso na questão da barca francesa Charles et George; o sentimento do acrisolado amor pátrio, protestando contra um acto de brutal abuso da força por parte duma nação, que querendo talvez desfeitear a Inglaterra, ofendia os nossos brios, abusando da nossa fraqueza, tais foram a inspiração daqueles dois eloquentíssimos discursos, que fizeram época nos factos parlamentares. Com a ideia de organizar um partido novo, promoveu José Estêvão no escritório da Política Liberal uma conferência de alguns homens políticos e redactores de jornais, e nessas reuniões se assentou em formular um manifesto que seria assinado pelos jornais ali representados e redigido por José Estêvão. O manifesto apareceu nos jornais de 27 de setembro de 1861, mas pouco efeito produziu. Foi, portanto, necessário adiar a organização do novo partido, e quando em 1862 o marquês de Loulé tratou de recompor o gabinete a que presidia, desejando chamar ao seu partido o grande tribuno, convidou-o para a pasta do reino. Desenvolveu-se então grande intriga procurando afastá-lo do ministério, o que desgostou profundamente o carácter honrado de José Estêvão. Depois de encerradas as cortes, foi José Estêvão passar algum tempo em Cascais, e havendo-se entabulado outra vez negociações para a entrada dele no ministério, quando voltou em Lisboa nos meados de outubro, parece que estava tudo disposto para dentro em pouco lhe ser confiada a pasta do reino, mas acometido de doença mortal no dia 2 de novembro, faleceu dois dias depois.

A sua morte causou a mais profunda impressão; o enterro foi uma manifestação imponentíssima, milhares de pessoas acompanharam o féretro a pé até ao cemitério dos Prazeres; fizeram-se representar as câmaras dos pares e dos deputados, a Sociedade das Ciências Médicas, a Sociedade de Geografia, todas as associações e clubes, colégios, institutos, sociedades de recreio, corporações de bombeiros municipais e de voluntários, asilos, etc. As duas câmaras parlamentares, apenas souberam a triste noticia, levantaram a sessão depois de sentidos discursos dalguns pares e deputados. Por espaço de oito dias se conservou coberta de crepe a cadeira do grande orador. Foi resolvido que a câmara mandasse lavrar em mármore o busto de José Estêvão, para ser colocado na biblioteca do corpo legislativo, e se abrisse uma subscrição nacional para se erigir um monumento fúnebre à memória do notável orador. À beira da sepultura discursaram Luís Augusto Rebelo da Silva, Jacinto Augusto de Freitas Oliveira, José da Silva Mendes Leal e José Manuel Gonçalves, falando este ultimo em nome das criancinhas do Asilo de S. João, de que José Estêvão fora um dos fundadores e presidente. Todos os jornais do país publicaram sentidos artigos necrológicos. O seu cadáver foi posteriormente trasladado para Aveiro em maio de 1864, sendo sepultado em jazigo que ele mandara ali construir. Na casa onde nasceu naquela cidade mandou a respectiva câmara municipal colocar em 1887 uma lápide comemorativa. José Estêvão também se distinguiu no foro, aparecendo ali duas vezes dum modo brilhante; da primeira em defesa do periódico Portugal Velho, e da segunda defendendo um boticário acusado de ter mandado matar seu sogro, conseguindo a absolvição dos seus constituintes. 

Era casado com D. Rita de Miranda Coelho de Magalhães, filha do médico Custódio Luís de Miranda e de D. Margarida de Miranda de Moura. Esta senhora era natural do Porto, onde também faleceu a 2 de outubro de 1904.

Para a biografia de José Estêvão Coelho de Magalhães pode ver-se a Revista Contemporânea de Portugal e Brasil, tomo, I, 1859, artigo de Rebelo da Silva; Os varões ilustres, pelo mesmo escritor; Apontamentos sobre os oradores parlamentares de 1853 por um deputado, de Cunha Rivara; Esboço histórico, de Jacinto Augusto de Freitas Oliveira; Arquivo Pitoresco, vol. V; Dicionário Universal, Português Ilustrado, vol. VI, etc.

Biografia retirada daqui




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